Igualdade e Desigualdade

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Uma das fontes de crises, corrupções e violências no mundo atual é a perda de percepção de que as pessoas são iguais pela comum dignidade humana, devem ser tratadas por igual pela Justiça civil - o que não acontece - mas que são muito diferentes nos seus dons e capacidades e exercem funções sociais muito diferentes. Inoculou-se a mentalidade de que todos são iguais, perdendo-se a noção de que a sociedade é um corpo formado por órgãos diferentes, como o corpo humano. Enfraqueceu-se a noção de autoridade, difundindo-se a idéia de que todos são iguais em tudo nas democracias. Isto é uma mentira. Toda sociedade humana terá sempre uma estrutura de poder, onde uns são líderes e outros liderados, uns trabalham organizando e decidindo os caminhos sociais e outros trabalham produzindo o que os primeiros decidiram. Os sufrágios são falhos porque não sabemos tudo sobre os candidatos em que votamos, vota-se sob campanhas de formação de imagem e opinião pública e os candidatos não tem compromisso com o que apregoaram nas suas campanhas. No fundo quem dá as cartas é sempre o poder econômico. Os pobres nunca governam. São governados. O texto abaixo, uma leve adaptação feita pelo autor do blog sobre um texto do Professor Orlando Fedeli ( http://www.montfort.org.br/ ) nos ajuda a entender a Igualdade e a Desigualdade naturais entre as pessoas, num perfeito equilíbrio.

DESIGUALDADE & IGUALDADE:
CONSIDERAÇÕES SOBRE UM MITO
Orlando Fedeli - adap. P. Afonso Chrispim

É muito comum hoje em dia, em catecismos e pregações, ouvirmos o princípio de que todos os homens são iguais e não deve haver desigualdades. Toda desigualdade entre os homens seria sinal de pecado, seria um mal, inevitável ou não. Este pensamento que denominaremos igualitarismo merece uma melhor explanação. Penetrou fundo nas mentes a idéia de que a igualdade é sinônimo de justiça, e de que o próprio Deus quer que haja igualdade entre os homens. Ora, Cristo e a Igreja ensinam que a desigualdade é um bem em si mesmo.

Evidentemente, nossa afirmação deve chocar muitas pessoas hoje, acostumadas pela sociedade a considerar toda igualdade um bem e toda desigualdade como injustiça.

Em nossos dias, tudo fala e trabalha em prol da igualdade. Feministas querem a igualdade entre o homem e a mulher, outros querem a igualdade entre as nações, considerando toda colonização criminosa. Busca-se a igualdade até nas modas, sem levar em conta as tradições de cada povo e olvidando-se mesmo as diversas condições climáticas. Hoje, a mesma arquitetura enfeia Paris, Tóquio, Buenos Aires, Argel ou São Paulo. No rádio, os mesmos ritmos igualam a música italiana, russa, alemã, argentina e americana. Por toda parte se ouvem os mesmos guinchos, os mesmos uivos, os mesmos batuques, idênticas cacofonias.

Nas relações sociais se nota o mesmo desejo de igualdade: os velhos querem, mais do que nunca, parecer jovens. Professores se dizem iguais aos alunos. Governantes, demagogos, procuram igualar-se aos governados. Padres para nivelar-se aos fiéis, deixam de lado a batina e a compostura; casam-se. Até o papa se deixa filmar esquiando e escorregando na neve, ou nadando em piscina como um atleta qualquer. Aboliram-se os títulos de nobreza e as fórmulas de cortesia. Todo mundo virou você. E todo você usa jeans e masca chicletes. Mesmo quando vai à mesa da Comunhão. Ainda mais nefasto que todas as demais igualdades é o igualitarismo religioso em que católicos, pensando ser ecumênicos, fazem afirmações de que em qualquer religião se agrada a Deus do mesmo modo, e que Deus se comunicou a outros povos através de Maomé ou Buda, como se comunicou a nós através de Jesus Cristo. Basta ver o repúdio com que foi recebida a Declaração Dominus Iesus, da Sagrada Congregação para a Doutrina da Fé, quando afirmou, segundo a Sagrada Escritura, que só Cristo é o Salvador de toda a humanidade e só a Igreja Católica é a Igreja estabelecida por Jesus Cristo.

No século XX, tudo se nivelou. Como, então, se espantar que até nos folhetos dominicais da Santa Missa, nas pregações, nos livros de muitos teólogos, se defenda a igualdade absoluta e irrestrita? São manifestações desse igualitarismo, entre outras, a reivindicação do sacerdócio para as mulheres, e a de igualdade de direitos para quem age de acordo com a lei natural e para quem comete abominações, como é o caso do homossexualismo.

Na realidade, toda a História Moderna e Contemporânea gira em torno do problema da desigualdade ou da igualdade de direitos dos homens. Do século XVI ao século XX, a História registra um movimento igualitário cada vez mais acelerado e radical, que vem destruindo tudo o que a Civilização Cristã havia criado. É esse movimento igualitário que dá unidade e sentido à história desde o fim da Idade Média. A partir do século XV se tem discutido se a igualdade é um bem ou não.

A revolução ocidental tem buscado a igualdade em tudo como o máximo bem. A Igreja Católica sempre ensinou que a desigualdade é um bem a ser desejado. Vejamos com que argumentos.

UNIVERSO DESIGUAL

Deus criou um universo desigual e hierárquico. Com efeito, se analisarmos o universo, veremos que nele há uma hierarquia de seres, que vai desde o mineral - matéria pura - até o anjo, ser puramente espiritual, passando pelos vegetais, pelos animais e pelo homem.

Não só os vários reinos da criação são desiguais, mas em cada um desses reinos existe uma grande e proporcionada desigualdade. É no mundo inanimado dos átomos e dos astros que há menos desigualdade e, entretanto, mesmo aí, ela é bastante acentuada.

No mundo atômico, cada elemento tem suas propriedades particulares. Na tabela de Mendeleiev há até - quiçá para horror dos igualitários - alguns gases nobres, assim chamados porque não se misturam com outros, mais plebeus. Nessa mesma tabela, assim como na natureza, os elementos preciosos estão próximos, porque o semelhante atrai o semelhante. O precioso atrai o precioso e o vulgar atrai o que é vil.

No macrocosmo estelar há também uma grande desigualdade harmônica. Cada sistema tem satélites vassalos de planetas, que por sua vez fazem corte a uma estrela e, como diz o Apóstolo S. Paulo: “Um é o esplendor do Sol, outro o da Lua e outro o das estrelas, e até uma estrela difere da outra em esplendor” (1Cor  15,41). Uma estrela é diferente de outra estrela.

No reino vegetal, a desigualdade cresce de valor, porque a vida vegetal traz uma variedade maior. Há cedros majestosos no Líbano, sequóias gigantescas e antiquíssimas na Califórnia, orquídeas delicadas e exóticas nas selvas brasileiras e repolhos vulgares em qualquer horta. É a vida, nos vegetais, que lhes permite uma capacidade simbólica maior e daí uma desigualdade maior do que aquela existente entre os minerais. Se uma jovem vai a uma festa usando um bracelete de metal barato, imitando o ouro, ela não vai causar com isso escândalo nenhum. Mas se para enfeitar seu vestido colocar sobre o peito não uma rosa, mas um repolho, certamente causará uma explosão de risos. Isto porque a desigualdade entre o repolho e a rosa é muito maior do que aquela existente entre o metal vulgar e o ouro.

Entre os animais a desigualdade é ainda maior, pois sua capacidade de movimento e de atuação os faz ainda mais diferentes. É evidente.

Para falarmos apenas de desigualdade de símbolos, lembramos que há animais cuja aparência e modo de atuar lembram virtudes humanas, enquanto de outros diz o livro da Sabedoria que “nada há neles que os torne atraentes como os outros animais; até foram excluídos do elogio de Deus e da sua bênção” (Sb 15,19). Tais animais são símbolos do pecado quer por sua forma, quer por seu modo de ser.

Assim, a serpente lembra o demônio não apenas porque foi usada por Satanás para tentar nossos primeiros pais, Adão e Eva, mas também pelos símbolos que se vislumbra em seu ser: sua língua bífida, dividida, lembra a linguagem dupla do demônio, ora dizendo a verdade, ora a mentira, ocultando esta sob aquela. A serpente sinuosa se aproxima ziguezagueando, como o demônio cujo caminho não é reto. Ela, apesar de viva, tem em seu corpo o frio da morte, como o demônio que, embora vivo, tem em si o frio da morte e do pecado.

O leão tem porte majestoso e bem merece ser chamado de rei dos animais por sua grandeza. Se lançarmos a um leão um pedaço pequeno de carne, ele não o comerá, por não a ver. Deus fez o leão com um esplêndido defeito na vista: ele só vê coisas grandes. Com isso ensina ao homem que deve ter olhos só para o que é grande, não mirando o que é vil.

O morcego - um rato que voa - é tétrico e monstruoso. Dotado de um aspecto horripilante, alimentando-se de sangue alheio, ele somente pousa de cabeça para baixo, tendo de tudo - a exemplo do demônio - uma visão invertida. Para ele a luz é tenebrosa. Nas trevas ele vê. Elas são o seu reino, como delas Satã é o príncipe.

Conta-se que o arminho, animal de pelagem alvíssima, vendo-se cercado de lama, não procura escapar do caçador, parecendo preferir morrer a sujar-se, ensinando-nos assim que é melhor a morte do que a impureza, que é preferível perder a vida, a perder a honra. Se non é vero, é bene trovato. O porco por sua vez é desprezível, porque olha sempre para a lama e jamais para as estrelas. Por isso, até nossos tempos, os porcos jamais haviam feito poesias.

Entre os anjos, seres puramente espirituais e os mais perfeitos da criação, a desigualdade é maior do que em qualquer reino do universo. S. Tomás ensina que eles se dividem em três ordens; cada uma das quais se divide, por sua vez, em três coros. São portanto nove coros angélicos sabiamente hierárquicos. Mas, dentro de cada coro, a desigualdade é tão grande que não há dois anjos da mesma espécie. Cada anjo é único (cfr. S. Tomás de Aquino, Suma Teológica I, q. 50, a. 4).

IGUALDADE E DESIGUALDADE NOS HOMENS

A desigualdade existente em todos os reinos do Universo nos leva a deduzir sua existência também entre os homens.

Com efeito, examinando-se os seres humanos, constatamos que eles diferem uns dos outros desde as pontas dos dedos até a “ponta” da alma. Por exemplo, calcula-se que antes se esgotará a energia e a luz do sol do que aparecerão dois homens com a mesma impressão digital. Há homens altos e baixos, feios e belos, gordos e magros, loiros, morenos, negros, etc. Se, com os poucos traços da face Deus fez uma variedade quase infinita de fisionomias, o que se dirá das características espirituais? As desigualdades psicológicas e espirituais são ainda maiores do que as físicas. A variedade de inteligências, talentos e virtudes é imensamente maior do que a dos rostos. Cada homem é, em certo sentido, único. É o que demonstra René Le Seinne em sua obra sobre a caracteriologia humana (René Le Seinne, Traité de Caracteriologie, PUF, Paris, 1973).

Entretanto, há nos homens uma igualdade fundamental proveniente do fato de terem uma só natureza. Ser homem é ser animal racional, isto é, ser constituído por corpo animal e alma espiritual: capaz de aprender com a inteligência, querer com a vontade e sentir com a sensibilidade.

A natureza de um ser é composta por tudo que é necessário para que ele seja o que é. Para ser um homem, é preciso ter corpo animal e alma racional. Nisto todos os homens são iguais. Daí os direitos naturais decorrentes dessa natureza, comum a todos, deverem ser iguais para todos. Assim, todos os homens têm direito igual a viver, a alimentar-se, a trabalhar, a descansar, a reproduzir-se, a ter propriedade, a saber a verdade, a amar o bem, a conhecer a beleza, etc. Os direitos naturais - repita-se - são iguais porque provém da natureza, que é a mesma para todos os homens. Mais do que tudo isso, os homens têm uma suprema igualdade: a de terem sido todos chamados “à mesma e eminente dignidade de filhos de Deus, tendo todos o mesmo fim, cada um será julgado pela mesma lei e receberá o castigo ou recompensa que merecer” (Leão XIII, Encíclica Quod Apostolici Muneris, de 28 de dezembro de 1878).

Todavia, se entre os homens existe essa igualdade natural fundamental, disto não se segue que sejam iguais em tudo. Nos acidentes os homens são diferentes.

Acidentes são qualidades que existem num ser mas não lhe são necessárias para ser o que é. Para ser homem, não é preciso ter pelo branca, ter 1,80 m de altura ou pesar 90 kg. Não é preciso ser doutor ou atleta. Ser alto, gordo, branco, doutor e atleta são acidentes da natureza humana. Poderíamos dividir os acidentes em dois grandes grupos: aqueles dos quais decorrem e dos quais não decorrem direitos. Vejamos alguns exemplos.

A

B

alto - baixo

virtuoso - pecador

loiro - moreno

honesto - ladrão

gordo - magro

professor - aluno

calvo - cabeludo

capaz - incapaz

branco - negro

trabalhador - vadio

 

pai - filho

Os acidentes do grupo A não produzem direitos. Mas acidentes do grupo B geram direitos. A acidentes desiguais correspondem direitos acidentais desiguais. É justo que o virtuoso, o trabalhador, o capaz, tenham direitos diferentes, mais amplos, dos do pecador, o vadio e o incapaz. O professor deve ter mais direitos que o aluno, assim como o pai tem mais direitos que os filhos, embora todos eles sejam iguais por natureza e tenham direitos naturais iguais.

O erro fundamental de todas as formas de racismo consiste em atribuir direitos e deveres em função de um acidente do grupo A, qual seja, a raça ou a cor da pele.

Diz Leão XIII na mesma encíclica Quod Apostolici Muneris: “… a desigualdade de direitos e de poder provém do próprio Autor da natureza …”. E mais adiante: “Aquele que criou e governa todas as coisas regulou com sua sabedoria providencial que as ínfimas coisas ajudadas pelas medianas, e estas pelas superiores, consigam todas o seu fim.”. “Por isso, assim como no Céu quis que os coros dos anjos, fossem distintos e subordinados uns aos outros, e na Igreja instituiu graus e diversidade de ministérios, de tal forma que nem todos fossem apóstolos, nem todos doutores, nem todos pastores (cf. 1Cor. 12, 27). Assim estabeleceu que haveria na sociedade civil várias ordens diferentes em dignidade, em direitos e em poder, a fim de que a sociedade fosse, como a Igreja, um só corpo, compreendendo um grande número de membros, uns mais pobres que os outros, mas todos reciprocamente necessários e preocupados com o bem comum.” (Leão XIII, Quod Apostolici Muneris, no 15, 17 e 18). E na Encíclica Humanum Genus diz Leão XIII: “… se considerarmos que todos os homens são da mesma raça e da mesma natureza e que devem todos atingir o mesmo fim último e se olharmos aos deveres e aos direitos que decorrem dessa comunidade de origem e de destinos, não é duvidoso que eles sejam iguais. Mas, como nem todos eles têm os mesmos recursos de inteligência, e como diferem uns dos outros seja pelas faculdades do espírito seja pelas energias físicas; como, enfim, existem entre eles mil distinções de costumes, de gostos, de caracteres, nada repugna tanto à razão como pretender reduzi-los todos à mesma medida, a introduzir nas instituições da vida civil uma igualdade rigorosa e matemática.” (Leão XIII, Carta Encíclica Humanum Genus, no 22).

Quando duas coisas são iguais em sua natureza e diferentes nos seus acidentes, elas são semelhantes, e não iguais. Assim, os triângulos, iguais na forma (natureza) e diferentes no tamanho (acidente), chamam-se semelhantes e não iguais.

Quem quisesse construir, por exemplo, um viaduto e nos cálculos tratasse dois triângulos semelhantes como se fossem iguais, erraria. O viaduto desabaria. Porque semelhante não é igual. Ora, a sociedade moderna comete o mesmo erro ao promulgar constituições nas quais se afirma que os homens são iguais, quando, na verdade, são semelhantes. Por isso a sociedade está ruindo.

Em síntese, podemos afirmar:

1) A desigualdade é uma lei da natureza. Deus tudo fez com desigualdade. Em todos os reinos da criação existe desigualdade.

2) Também entre os homens não há igualdade. Iguais na natureza, desiguais nos acidentes, os homens são semelhantes e não iguais.

3) Da igualdade de natureza dos homens decorrem direitos naturais iguais para todos. Assim, o racismo é um crime porque nega a igualdade natural, violando direitos naturais que são iguais para todos. a cor da pele é acidente que não gera direitos.

4) Da desigualdade de certos acidentes derivam-se direitos acidentais desiguais.

5) Na escala hierárquica da criação não há desigualdades bruscas ou desproporcionadas. As desigualdades encontram-se sempre em pequenos graus.

6) A desigualdade cresce com a perfeição do ser. Quanto mais perfeito é o ser maior é a desigualdade. Quanto menos perfeito, menos é a desigualdade. As menores desigualdades existem entre as pedras. As maiores entre os anjos.

7) Quanto mais um homem se aperfeiçoa, mais se diferencia dos outros.

Duas crianças ingressam na escola. Ambas analfabetas. Ambas muito semelhantes. Anos depois, uma se formou em Medicina, a outra em Engenharia. Elas se aperfeiçoaram. Elas se diferenciaram mais.

8) Querer impor a maior igualdade possível entre os homens é querer que eles não se aperfeiçoem, mas decaiam. A igualdade só se pode realizar pelo nível mais baixo.

9) Só a desigualdade social permite o progresso social. Quanto mais degraus houver numa escala social, mais fácil será progredir e ascender socialmente.

Quanto menos degraus houver, ou quanto mais eles forem desproporcionados, mais difícil será a ascensão, o progresso social.

10) A solução socialista para o problema de uma sociedade excessiva e desproporcionadamente desigual é fazer a igualdade, isto é, retirar a escala social. Feito isso fica impossível progredir socialmente. O Estado então esmaga a pessoa.

11) A civilização cristã medieval, sancionando as desigualdades postas por Deus, criou uma sociedade hierárquica com desigualdades proporcionais; facilitando a mobilidade, a ascensão e o progresso sociais.

12) A Civilização Moderna, na medida em que tem por ideal a igualdade, rejeita o aperfeiçoamento dos indivíduos, porque isto os torna mais desiguais.

13) Isso explica por que a sociedade igualitária atual é decadente.

A DESIGUALDADE : UM BEM

Evidentemente, se Deus criou os homens semelhantes e não iguais, isto tem que ser bom. Desejar a igualdade contraria os planos de Deus que quer o aperfeiçoamento humano. Por isso S. Pio X condenou o movimento pseudo católico do Sillon; o santo Pontífice cita Leão XIII que censurou “uma certa democracia que vai até aquele grau de perversidade de atribuir na sociedade, a soberania ao povo e de pretender a supressão e o nivelamento das classes” (S. Pio X, Notre Charge Apostolique no 9). Veja-se portanto que, segundo Leão XIII e S. Pio X, querer a igualdade dos homens e a soberania popular são atos de “perversidade”.

Contudo, não basta dizer que a desigualdade é um bem porque Deus quer assim. Há motivos sapienciais profundos para Deus fazer tudo com desigualdade. São Tomás de Aquino mostra o bem da desigualdade quer na Suma Contra Gentiles (Livro II, cap. XLV) quer na Suma Teológica (I, q. 50 a. 4).

Entre outros argumentos, destacamos os seguintes:

I) A desigualdade é um bem porque permite que haja no Universo uma imagem da Sabedoria de Deus através da ordem.

Na obra de Deus não pode faltar a suma perfeição. Ora, sendo o bem da ordem de vários seres melhor do que qualquer dos seres ordenados, a ordem não podia faltar na criação, e por isso diz o Apóstolo: “Quae a Deo sunt, ordinata sunt” “As coisas que procedem de Deus estão ordenadas” (Rm 13,1).

Mas este bem da ordem não poderia existir sem a desigualdade, pois só se podem ordenar seres diversos.

Por outro lado, a ordem reflete a inteligência ordenadora. Portanto é a desigualdade que permite ser espelhada no Universo, através da ordem, a sabedoria de Deus.

Não é demasiado reproduzir a argumentação em outros termos.

Todo ser inteligente faz as coisas conscientemente em ordem. Ora, Deus é sapientíssimo. Logo, Ele fez o universo em ordem.

A ordem exige desigualdade. Não é possível ordenar entre si coisas iguais. Por exemplo, é impossível pôr em ordem alfabética uma lista de 40 nomes iguais. Ora, como vimos Deus fez tudo com ordem. Logo, Deus tinha que fazer tudo com desigualdade.

A ordem reflete o grau de inteligência do ordenador. Assim, por exemplo, uma pessoa analfabeta arrumaria os livros de uma estante pelo tamanho ou cor dos livros. Uma ordenação dos livros por assunto indicaria que o ordenador sabe ler. Portanto, a ordem do universo permite que haja nele um reflexo da Sabedoria de Deus.

Amar a desigualdade é amar a ordem. Amar a ordem é amar a imagem de Deus no Universo. Ora, quem ama uma imagem não ama a imagem em si, mas sim a pessoa representada na imagem. Portanto, amar a desigualdade é amar a Deus.

Odiar a desigualdade é odiar a ordem, é odiar a imagem da sabedoria de Deus. Odiar a desigualdade é odiar Deus.

O socialismo ama a igualdade como um bem em si. Portanto o socialismo odeia Deus. O mandamento da Lei de Deus ordena amar a Deus sobre todas as coisas e não odiá-lo. Logo, ninguém pode ser socialista e católico ao mesmo tempo pois o catolicismo manda amar a desigualdade para amar a Deus, enquanto o socialismo, querendo a igualdade, odeia a Deus. Foi por tais razões que o Papa Pio XI, na Encíclica Quadragesimo Anno, escreveu: “Socialismo e Catolicismo são termos contraditórios. Ninguém pode ser socialista e católico ao mesmo tempo”. (Pio XI, Quadragesimo Anno no 119)

II) A desigualdade é um bem porque permite que haja no universo uma imagem do amor de Deus pela caridade.

Deus é bom e faz o bem. Ora, o homem deve também fazer o bem para que sua semelhança com Deus seja mais perfeita. Todo homem enquanto ser é bom. Mas isto não basta. É preciso que ele seja bom moralmente, isto é, que faça o bem. Entretanto o homem não poderia fazer o bem aos outros se não houvesse quem tivesse necessidade também. Por exemplo, se todos tivessem a mesma riqueza não se poderia dar esmolas; se todos tivessem a mesma sabedoria, não seria possível dar conselho.

Para que fosse possível a caridade era preciso haver desigualdade. Pela desigualdade, pois, há no universo uma imagem do amor de Deus, que é a caridade.

A HARMONIA DO UNIVERSO

Como vimos, é a desigualdade que permite a ordem e a harmonia do Universo.

Se Deus tivesse criado seres absolutamente iguais, não poderiam eles ser ordenados, não haveria harmonia. A beleza do arco-íris só é possível pela desigualdade harmoniosa das cores, e esta harmonia dá ao arco-íris, no conjunto, mais beleza do que tem cada cor isoladamente. Do mesmo modo, é a desigualdade das notas musicais que permite a música.

A harmonia universal traz uma bondade ao universo superior a cada componente.

Por isso, explica S. Tomás (Suma Contra Gentiles, Livro 11, cap. XLV), Deus, ao criar cada coisa, disse que era boa, mas ao examinar o conjunto das coisas criadas disse que “era muito bom”, isto é, ótimo (Gn 1,31).

Deus fez os homens à Sua imagem e semelhança, mas deu a cada um deles a missão de espalhar principalmente uma de suas perfeições. Pode-se dizer que S. Francisco é o santo da pobreza. Tal não quer dizer que ele não tivesse outras virtudes, mas significa que nele a pobreza predominava. O mesmo se poderia dizer da mansidão de S. Francisco de Sales, do zelo de Santo Elias etc.

Deus criou a alma humana como espelhos, para que a Sua imagem se refletisse em cada uma. Mas Deus é infinito, e o homem finito. Se o Criador tivesse feito os homens todos iguais, essa imagem refletida neles seria excessivamente diminuta. Para que houvesse uma imagem de Deus o quanto possível completa na criação, Nosso Senhor dispôs os homens como espelhos a seu redor. Desse modo, cada homem é feito à imagem de Deus por ter natureza racional, mas reflete a Deus sob um determinado “ângulo” diferente de todos os demais. Assim cada homem é único. Cada homem reflete a Deus de modo particular. É essa imagem de Deus que dá desigualdade ao homem. O maior valor de cada um não advém de ser capaz, rico, diplomado, popular etc. e sim de ser filho de Deus pelo batismo, de ser feito à Sua imagem pela alma racional. A honra particular de cada homem advém do fato de que ele foi criado para espelhar - ele só de modo muito especial - uma certa qualidade de Deus, com um tom particular.

Imaginemos o último dos homens, o mais despersonalizado, o menos capaz, o menos simpático etc. Esse último dos homens tem em sua alma uma beleza particular que, desde Adão até o fim do mundo nenhum outro homem terá. Sob esse aspecto, ele é o primeiro dos homens. Mais ainda: tudo o que os outros têm a mais é para servi-lo. Handel compôs música para ele. Pasteur inventou a vacina para curá-lo. S. Tomás escreveu para ele. Todos os que lhe são superiores agiram para ele. Serviram-no. Desse modo também, o último é o primeiro. Cada homem então pode repetir para si o lema dos nobres medievais Coucys. “Eu não sou nem rei, nem duque, nem príncipe também. Eu sou o senhor de Coucy”.

Nisto consiste até mesmo a felicidade terrena: alegrar-se com o que se é, amando o dom que Deus nos deu. Pouco importa que na sinfonia da humanidade sejamos uma pequena nota, que soa baixa e por pouco tempo. Devemos ter consciência de que sendo o que somos, refletindo em nossa alma a imagem de Deus, temos um valor único. Ainda que pobres, incapazes e desconhecidos.

É preciso amar o que se é. Santa Tereza do Menino Jesus dizia que preferia ser a pequena Tereza do que ser a mãe de Deus porque sendo a pequena Tereza ela tinha Maria por mãe no Céu, enquanto que a Virgem Maria não tinha mãe no Céu. E que ela amava tanto a Virgem Maria que, se pudesse escolher entre ser a pequena Tereza, ou ser a Mãe de Deus, quereria ser a pequena Tereza, para que Maria, ela sim, tivesse a honra de ser a Mãe de Deus, Rainha do Céu e da Terra.

Assim cada homem contribui com algo para que a imagem de Deus seja mais perfeita, e cada homem por isto tem um valor particular e uma dignidade especial, ainda que seja o último de todos os homens. Numa peça musical, cada nota tem um valor. Querer retirar dela uma nota porque é a última na escala, é querer destruir a beleza da música. Para que a música tivesse tal beleza, era preciso que aquela nota, embora fraca e breve, fosse tocada no momento devido. Deus compôs uma grande sinfonia criando os homens desiguais. O último dos homens tem um papel especial nessa sinfonia. E seu valor é único. E ele contribui com uma beleza particular para a beleza de todo o conjunto.

Se as notas quisessem todas igualar-se, se todas quisessem ficar na mesma linha da pauta, já não haveria música, mas apenas um silvo monótono. Desejar estabelecer a igualdade entre os homens é pretender destruir toda harmonia que Deus fez na sinfonia da humanidade. Um mecanismo só pode funcionar em razão da desigualdade de seus componentes. Estabelecida a igualdade nas engrenagens de uma máquina ela deixa de funcionar. Tratar com igualdade os vários órgãos do corpo humano causará a sua morte. A igualdade quebra os mecanismos e mata os organismos. O igualitarismo quebra e mata a sociedade. A desigualdade dos homens possibilita a variedade de funções e a divisão sábia do trabalho. Disso tudo nasce naturalmente a diferenciação das classes sociais. Cada classe tem uma função. Cada uma delas tem sua dignidade própria. Assim como os órgãos do corpo humano têm funções desigualmente importantes mas todas necessárias, assim também cada classe é útil e necessária para manter a vida do organismo social. Todos contribuem harmoniosamente para o bem comum. Entre elas há harmonia e não luta e contraposição como afirma a dialética marxista. Somente quando a sociedade está doente é que se dão antagonismos de classe.

A DESIGUALDADE NA SAGRADA ESCRITURA

Tudo isto é doutrina perene da Igreja. Tudo isto foi explicado por São Tomás, está registrado nas Escrituras Sagradas e foi confirmado pelos Papas em seus documentos magisteriais. Tudo isto é hoje renegado nos sermões, nos documentos episcopais e nas cátedras de teologia. Nos tempos atuais parece que ao invés de evangelizar o mundo com o esplendor da Verdade, a Igreja é que se fez discípula dos iluministas e marxistas com a sua égalité e sociedade (falsamente) igualitária. Em amplos setores da Igreja se ensina a igualdade e se prega a luta de classes. Assim fala o Espírito Santo:

“Por que é que um dia é preferido a outro dia, uma luz a outra luz e um ano a outro ano, provindo todos do mesmo sol? Foi a ciência do Senhor que os diferenciou, depois que criou o sol, o qual obedece às suas ordens. E variou as estações e os seus dias de festa, e nelas se celebraram as solenidades à honra determinada. Destes mesmos dias fez Deus a uns grandes e sagrados, e a outros pôs nos número de dias comuns. E assim é que também todos os homens são feitos do pó e da terra, de que Adão foi formado. O Senhor, porém, pela grandeza de sua sabedoria, distinguiu-os, e diversificou os seus caminhos, A uns abençoou e exaltou; a outros santificou e tomou para si; e a outros amaldiçoou e humilhou, e expulsou-os, depois de os ter separado, como o barro está nas mãos do oleiro, para lhe dar a forma e disposição que deseja, e para o empregar nos usos que lhe aprouver, assim o homem se encontra na mão daquele que o criou, e que lhe dará o destino segundo o seu juízo. Contra o mal está o bem, e contra a morte a vida; assim também contra o homem justo está o pecador. Considera assim todas as obras do Altíssimo. Achá-las-ás duas a duas, e uma oposta á outra”. (Eclo 33, 7-15).

Portanto, a Escritura ensina que os homens tem uma igualdade essencial ou de natureza e uma desigualdade acidental. A mesma lição foi ensinada por Leão XIII. “O primeiro princípio a pôr em evidência é que o homem deve aceitar com paciência a sua condição: é impossível que na sociedade civil todos estejam elevados ao mesmo nível. É, sem dúvida, isto o que desejam os socialistas; mas contra a natureza todos os esforços são vãos. Foi Ele (Deus), realmente, que estabeleceu entre os homens diferenças tão multíplices como profundas; diferenças de inteligência, de talento, de habilidade, de saúde, de força; diferenças necessárias, de onde nasce espontaneamente a desigualdade das condições. Esta desigualdade, por outro lado, reverte em proveito de todos, tanto da sociedade como dos indivíduos; porque a vida social requer um organismo muito variado e funções muito diversas, e o que leva precisamente os homens a partilharem estas funções é, principalmente, a diferença de suas respectivas condições. (Leão XIII, Carta Encíclica Rerum Novarum no 26)

A desigualdade com que Deus criou todos os homens tem conseqüências sociais muito concretas. Assim, alguns devem dirigir, outros, obedecer. É essa desigualdade querida por Deus que faz existirem sábios e ignorantes, ricos e pobres. Por isto se lê no livro dos Provérbios:

Qui stultus est, serviet sapienti” (Pr 11, 20) “Quem é néscio, sirva ao sábio”. Ou ainda:

“O rico e o pobre se encontraram; o Senhor criou a ambos” (Pr 22, 2). No livro do Eclesiástico pode-se ler a seguinte lição anti-socialista: “O letrado adquire sabedoria no tempo do ócio, e o que tem poucas ocupações alcançará a sabedoria. De que sabedoria será cheio o que pega no arado, e o que faz o timbre de saber picar os bois com um aguilhão, e se ocupa constantemente em seus trabalhos, e cuja conversação é somente sobre novilhos e touros? Ele aplicara o seu coração em tirar (bem) os sulcos, e os seus desvelos em engordar as vacas. Assim todo o carpinteiro e arquiteto, que passa trabalhando a noite e o dia, assim o que grava as figuras dos sinetes, e que todo se cansa em as variar, aplica o seu coração em reproduzir o debuxo, e, à força de vigílias, completará a obra. Assim o ferreiro, assentado ao pé da bigorna, está atento ao ferro que está trabalhando; o vapor do fogo cresta as suas carnes, e ali está lutando com o calor da frágua. O estrondo do martelo fere sem cessar os seus ouvidos, e os seus olhos estão fixos no modelo da sua obra. Aplica o seu coração a completar as suas obras, e com o seu desvelo as aformoseia, dando-lhes a última demão. Assim o oleiro, assentado junto da sua obra, dá voltas à roda com os seus pés, sempre cuidadoso pela a sua obra, e levando por conta tudo o que faz. Com seu braço dá forma ao barro, e com os seus pés torna-o flexível. Ele aplicará o seu coração a vidrar a obra perfeitamente, e madrugará para limpar o forno. Todos estes têm confiança na indústria das suas mãos, e cada um é sábio na sua arte. Sem todos estes não se edificaria uma cidade; não se habitaria nela, nem se passearia; mas eles não entrarão nas assembléias. Eles não se assentarão na cadeira do juiz; e não entenderão as leis da justiça; não ensinarão as regras da moral, nem do direito, e não se acharão ocupados na inteligência das parábolas; mas só restauram as coisas que passam com o tempo, e os seus votos são para fazerem bem as obras da sua arte; eles aplicam nisto a sua alma, e procuram viver segundo a lei do Altíssimo”. (Eclo 38,24—39,1)

CRISTO: ANTI - IGUALITÁRIO

Com tal freqüência ouvem-se sacerdotes deturpar e violentar os Sagrados Evangelhos que, hoje, quase todos os católicos crêem que Cristo ensinou e quer a igualdade entre os homens.

Ora, a vida de Nosso Senhor mostra o contrário. Cristo nasceu no povo eleito- o povo judeu - e o preferiu aos demais povos. Logo, Cristo não quis a igualdade dos povos e nem os trata igualmente. Daí que, já no Antigo Testamento Deus disse: “Bem-aventurado é o meu povo de Egito, e o Assírio é obra de minhas mãos; porém a minha herança é Israel”. (Isaias 19,25) Deus ama todos os povos infinitamente, mas sua preferência é por Israel. Por essa razão, S. Paulo ensina que Deus dará “tribulação e angústia para a alma de todo o homem que faz o mal, do judeu primeiramente, e depois ao grego”. (Romanos 2, 9-10)

Uma passagem dos Evangelhos mostra tal verdade de modo solar. Quando uma mulher cananéia seguia Cristo rogando que lhe curasse a filha possessa, o Mestre sequer respondia. Tendo-lhe os Apóstolos rogado que atendesse a essa mulher, o Divino Mestre ensinou: “Eu não fui enviado senão às ovelhas que pareceram da casa de Israel” (Mt 15, 24). A mulher pagã insistiu e adorando-O clamou: “Senhor, valei-me”. Nosso Senhor, respondendo, disse: “Não é bom tomar o pão dos filhos e lançá-lo aos cães” (Mt 15,25). Essa resposta afirma que, para Cristo, os judeus eram filhos, enquanto que os pagãos eram como cães. Como isto deve parecer duro e revoltante para a mentalidade atual! A mulher cananéia porém - que não era nem do PT nem das comunidades de base - não se revoltou e aceitou humildemente a comparação confessando: “Assim é Senhor, mas também os cachorrinhos comem das migalhas que caem da mesa de seus donos” (Mt 15,27). Então Jesus elogiou a fé daquela pobre mulher e deu-lhe não só a migalha, mas o pão inteiro, curando-lhe a filha; assim para Cristo os povos não eram iguais.

E em Israel, queria Deus que houvesse igualdade?

No povo eleito , havia 12 tribos. Entre elas Deus preferiu a de Judá, prometendo-lhe que dela nasceria a Messias: “Judá, teus irmãos te louvarão ( … ) os filhos de teu pai se prostrarão diante de ti ( … ) O cetro não será tirado de Judá” (Gn 49,8-12).

Na tribo de Judá havia muitas famílias mas Deus não as tratou igualmente, pois preferiu entre todas a família de Davi. Quando veio ao mundo, Cristo nasceu num presépio onde havia - diz a tradição - um boi e um burro, cumprindo-se o que profetizara Isaías:

“Conhecerá o boi o seu dono, e o burro conhecerá o presépio de seu Senhor”. (Is 1, 3)

Hugo de S. Victor explica que o boi e o burro do presépio representavam respectivamente o judeu e o pagão, pois Cristo veio redimir a ambos. O boi que arava sob a canga representa o judeu que labutava sob a canga da Lei mosaica. O asno que não tem sabedoria simboliza o pagão que não tinha a inteligência das coisas de Deus. Foi por essa razão que Cristo, demonstrando que veio salvar a todos os homens, entrou em Jerusalém montado num burrico que nunca havia sido montado. (Mc 11,2), levando-o até o templo de Jerusalém para significar que queria que os pagãos fossem levados à Religião verdadeira, ao Templo do Senhor.

Cristo fez chamar para o presépio os pastores e os reis, para demonstrar que vinha salvar pequenos e grandes e que governantes e súditos, poderosos e fracos devem coexistir pacificamente na sociedade.

Entretanto, Cristo não tratou igualmente os reis e os pastores. A estes chamou antes e por meio de um anjo. Aos reis, chamou posteriormente e por meio de uma estrela. Os “teólogos” progressistas poderiam aproveitar tais fatos - que revelam um privilégio concedido aos pastores - exclamando: “Cristo fez opção pelos pobres, pelos proletários”.

Ora, Cristo não chamou antes e através de um meio sobrenatural os pastores por serem eles pobres e sim porque, sendo judeus, tinham a verdadeira fé. Aos reis, que eram pagãos, Deus enviou apenas um sinal material. Nova desigualdade de tratamento.

E qual é a cidade de Cristo? Ele é Jesus de Nazaré. Mas quis nascer em Belém. A cidade em que mais fez milagres - e que mais favoreceu portanto - foi Cafarnaum. Porém seu primeiro milagre foi em Caná. A cidade na qual quis morrer foi Jerusalém. Mas seu poder Ele pôs em Roma. Seis cidades, seis amores diversos. Assim, Ele mostra que ama a cada um com um amor particular. Não igualmente.

Quando perambulava pelos caminhos da Judéia, Samária e Galiléia Ele ensinava mais aos discípulos que ao povo.

“A vós é concedido conhecer os mistérios do reino dos céus, mas a eles não lhes é concedido”. (Mt 13,11). Aos apóstolos, Ele ensinava mais do que aos discípulos. Aos próprios apóstolos. Ele não tratava igualmente, pois se transfigurou apenas diante de três privilegiados (Mt 17,1s). O primeiro que quis chamar a si foi André (Jo 1,40). Mas primeiro na autoridade foi Pedro (Mt 16,17-19). Porém o Apóstolo mais amado foi João, porque era virgem. Ele confiou a sua bolsa a Judas e não a outro. O único apóstolo que Cristo elogiou foi Natanael (Bartolomeu) dizendo dele “Eis um verdadeiro israelita, em quem não há dolo” (Jo 1,47). Mas o apóstolo por antonomásia não é nenhum dos doze. É Paulo, que foi o décimo terceiro.

Onde então a igualdade?

Nos seus ensinamentos Cristo pregou sempre a desigualdade “Porque (o reino dos céus) será como um homem… que deu cinco talentos (a um servo), e a outros dois, e a outro um, e a cada um segundo a sua capacidade” (Mt 25,14-15).

E mais tarde tal homem, que representa Deus, voltou para cobrar os juros. A parábola apresenta Deus como favorável a desigualdade, cobrando juros. Nada mais anti-socialista.

O mesmo Cristo disse “a quem muito foi dado, muito era pedido” (Lc 12,48). “Os poderosos serão poderosamente julgados” (Sb 16,6-7). “Porque ao que tem será dado e ainda mais terá em abundância; mas ao que não tem até o que tem lhe será tirado” (Mt 13,12).

Há então desigualdade nas graças, nas virtudes, nos mistérios e nas culpas, o que produz desigualdade de glória no céu e de castigos no inferno (cf. S. Tomás, Suma Teológica, I - 295 e Suma Contra os Gentios, cap. CXXXIX e CXXII).

O ENSINAMENTO DOS PAPAS A RESPEITO DA IGUALDADE

Desde que a Revolução Francesa levantou o estandarte da igualdade de direitos de todos os homens, os Papas vinham lutando continuamente contra esse princípio.

Vimos como Leão XIII ensinou que a desigualdade provém de Deus, que fez os anjos, a Igreja e a sociedade com hierarquia e que os socialistas abusam do Evangelho ao dizerem que deve haver igualdade entre os homens. (Leão XIII, Quod Apostolici Muneris n. 15, 17, 18, 19). Constatamos ainda que ao reprovar os princípios igualitários nas seitas secretas - e em especial de Maçonaria - Leão XIII mostrou como os homens são iguais na natureza e diferentes em seus acidentes, e que defender a igualdade é um erro que repugna à razão (Leão XIII Humanum Genus n. 22).

Na Rerum Novarum, o mesmo Pontífice ensinou que o socialismo, ao desejar impor a igualdade na sociedade, vai contra a natureza, bem como a desigualdade de condições reverte em proveito quer da sociedade como um todo quer em proveito de cada indivíduo. (Leão XIII, Rerum Novarum n. 26)

Também ao tratar do problema da democracia, Leão XIII condenou os que propugnam a democracia social até o grau de perversidade de fazê-la caminhar para igualdade de direitos e de fortunas (Leão XIII, Graves de Communi n. 4). S. Pio X ao condenar os erros do Sillon - movimento católico igualitário e ecumênico - reiterou esse ensinamento de Leão XIII.

Ninguém foi mais claro que Pio XI, que ao condenar o comunismo declarou:

“Não é verdade que na sociedade civil todos temos direitos iguais, e que não exista hierarquia legítima” (Pio XI, Divini Redemptoris n. 33).

A Igreja sempre refutou o igualitarismo liberal e socialista mostrando que os homens são semelhantes e não iguais, devendo portanto a justiça fazer reconhecer a igualdade de direitos naturais ao mesmo tempo que a desigualdade de direitos acidentais.

“A Igreja, pregando aos homens que eles são todos filhos do mesmo Pai celeste, reconhece como uma condição providencial da sociedade humana a distinção das classes; por essa razão Ela ensina que apenas o respeito recíproco dos direitos e deveres, e a caridade mútua darão o segredo do justo equilíbrio, do bem estar honesto, da verdadeira paz e prosperidade dos povos. (…) Mais uma vez Nós o declaramos: O remédio para esses males [da sociedade] não será jamais a igualdade subversiva das ordens sociais” (Leão XIII - Alocução de 24-I-1903 ao Patriciado e à Nobreza Romana - Benne Presse, Paris Tomo VII, pgs 169-170).

O mesmo Leão XIII mostrou que o igualitarismo socialista tem como conseqüências: “a perturbação em todas as classes na sociedade, uma odiosa e insuportável servidão para todos os cidadãos, porta aberta a todas as invejas, a todos os descontentamentos, a todas as discórdias; o talento e a habilidade privados dos seus estímulos, e, como conseqüência necessária, as riquezas estancadas na sua fonte; enfim, em lugar dessa igualdade tão sonhada, a igualdade na nudez, na indigência e na miséria” (Leão XIII, Rerum Novarum n. 22).

S.Pio X, condenando os erros do Sillon, disse:

“Se [Cristo] chamou junto de si, para os consolar, os aflitos e os sofredores, não foi para lhes pregar o anseio de uma igualdade quimérica” (S.Pio X, Notre Charge Apostolique n. 38).

Esse Papa santo escreveu ainda que ao querer a igualdade o Sillon “marchava para um ideal condenado” (S.Pio X, Notre Charge Apostolique no 9).

Pio XII ensinou que “a igualdade degenera em um nivelado mecânico, numa uniformidade monocroma: sentimento de verdadeira honra, atividade pessoal, respeito de tradição, dignidade, numa palavra, tudo que dá à vida o seu valor, pouco a pouco definha e desaparece. (…) “Num povo digno de tal nome, todas as desigualdades, não arbitrárias, mas derivadas da mesma natureza das coisas, desigualdades de cultura, posses, posição social (sem prejuízo, bem entendido, da justiça e da caridade) não são de modo algum obstáculo à existência ou ao predomínio de um autêntico espírito de comunidade e fraternidade. Pelo contrário, longe de lesar de algum modo a igualdade civil, lhe conferem o seu legítimo significado: Isto é, que defronte do Estado cada qual tem o direito de viver honradamente a própria vida pessoal, no lugar e nas condições em que os desígnios e disposições da Divina Providência o tiverem colocado.” (Pio XII, Radiomensagem de Natal de 1944 Sobre a Democracia, n.18 e 17)

O mesmo Pio XII, defendendo a verdade de que todos os homens são irmãos acrescentou:

“Pois bem, os irmãos não nascem nem permanecem todos iguais: uns são fortes, outros débeis; uns inteligentes, outros incapazes; talvez algum seja normal, e também pode acontecer que se torne indigno. É pois inevitável uma certa desigualdade material, intelectual, moral, numa mesma família (…) Pretender a igualdade absoluta de todos seria o mesmo que pretender idênticas funções a membros diversos do mesmo organismo” (Pio XII, Discurso de 4-VI-1953 a católicos de paróquias de S.Marsciano - Peruggia - Discorsi e Radiomessaggi vol XV - p. 195).

Leão XIII condenou a o igualitarismo dos que pretendem nivelar as fortunas negando o direito à propriedade: “É dever principalíssimo dos governos assegurar a propriedade particular por meio de leis sábias. Hoje especialmente, no meio de tamanho ardor de cobiças desenfreadas, é preciso que o povo se conserve no seu dever; porque, se a justiça lhe concede o direito de empregar os meios de melhorar a sua sorte, nem a justiça nem o bem público consentem que se danifique alguém na sua fazenda nem que se invadam os direitos alheios sob pretexto de não se sabe que igualdade “(Leão XIII, Rerum Novarum n. 55). Pio XII defendeu até a legitimidade da desigualdade no nascimento:

“As desigualdades sociais, inclusive as que são ligadas ao nascimento, são inevitáveis: natureza benigna e a benção de Deus à humanidade, iluminam e protegem os berços, beijam-nos, porém não os nivelam (…) tais desigualdades não podem ser consideradas por uma mente cristãmente instruída e educada, senão como disposição desejada por Deus pelas mesmas razões que explicam as desigualdades no interior da família e portanto com o fim de unir mais os homens entre eles, na viagem da vida presente para a pátria do céu, ajudando-se uns aos outros, da mesma forma que um pai ajuda a mãe e os filhos “Se esta concepção paterna da superioridade social, por vezes, em, virtude do ímpeto das paixões humanas, arrasta os ânimos a desviar nas relações de pessoas de categoria mais elevada, com as de condição mais humilde, a história da humanidade decaída não se surpreende com isto. Tais desvios não bastam para diminuir ou ofuscar a verdade fundamental de que para os cristãos as desigualdades sociais se fundem numa grande família humana” (Pio XII, Discurso ao Patriciado e à Nobreza Romana em 5- I-1942- in Discorsi e Radiomessaggi, vol III, p. 347).

Leão XIII mostrou que é dever sagrado de justiça defender a propriedade e a hierarquia social.

“Importa, por conseqüência, que nada lhe seja à democracia cristã mais sagrado do que a justiça que prescreve a manutenção integral do direito de propriedade e de posse; que defenda distinção de classes que sem contradição são próprias de um Estado bem constituído. (Leão XIII, Graves de Communi Re n. 4)

Vemos assim, que a desigualdade de direitos dos homens está de acordo com a razão, com o ensinamento das Escrituras e dos Papas.

Comprovamos também que a igualdade de direitos viola a ordem natural, é contrária à razão, é um erro condenado inúmeras vezes no Antigo e no Novo Testamento e que, por isso, como não podia deixar de ser, os Papas tem condenado sempre, como perversidade e crime contra a vontade de Deus, o querer estabelecer a igualdade na sociedade.

Deus quer a desigualdade proporcionada entre os homens. Querer a igualdade é contrariar a vontade de Deus.

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Questões Atuais de Teologia Moral

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Entre os Documentos do Magistério da Igreja, a maior referência atual em Moral Fundamental é a Carta Encíclica Veritatis Splendor, que pode ser acessada no seguinte link:

http://www.vatican.va/edocs/POR0072/_INDEX.HTM

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O texto abaixo foi construído pelo autor do blog a partir de um texto da obra “Revolução e Contra-Revolução” do Professor Plínio Corrêa de Oliveira. Substituiu muitos textos, acrescentou outros. mas a redação final conserva alguns trechos da obra original.

 

Questões Atuais de Moral

 

Introdução

A. Muitas questões de moral, uma só crise moral

À primeira vista poder-se-ia pensar que as “questões atuais de moral” são muitas e devem ser tratadas cada uma separadamente. Embora cada uma tenha seus particulares próprios, é preciso perceber, antes de tratar desses particulares, e para não transformar o estudo dessas questões de moral num assunto puramente técnico ou legalista, que não levaria a solução real nenhuma, mas apenas a julgamentos de “lícito” e “ilícito”, é preciso perceber que há nelas, nas questões que hoje se debate, uma unidade que vem do itinerário espiritual que a humanidade tem percorrido nos últimos séculos, até hoje.

O que é essa unidade? Uma doutrina? Uma força? Uma corrente de opinião? Bem se vê que uma elucidação a respeito ajuda a compreender até suas profundezas toda a crise moral do mundo contemporâneo e a missão da Igreja nele.

B. A missão da Igreja transcende a instituição católica

Para demonstrá-lo, basta lançar os olhos sobre o panorama religioso de nosso País. Estatisticamente, a situação dos católicos é excelente: segundo dados oficiais de 1960 constituíam 94% da população. Se todos os católicos fossem o que devem ser, o Brasil e outros países de esmagadora maioria católica, seriam hoje sociedades pacíficas e harmoniosas. Mas não. Apesar dessa grande quantidade de católicos a crise moral mundial avançou a passos largos em nosso país e atingiu até a Igreja. Escândalos e deserções no clero católico e em outras instituições morais e religiosas, diminuição da percentagem de católicos, da identidade dos católicos com a moral católica, divórcio, aborto, violência e corrupção generalizada.

Por que, então, estamos em tal crise? Quem poderia afirmar que a causa principal de nossa presente situação é o espiritismo, o protestantismo, o ateísmo, ou o comunismo? Bastaria trazer muitos para o seio da Igreja, para participar em nossas missas, convertê-los da participação em filosofias e instituições atéias, como parece ser o empenho de muitos sacerdotes? Adiantam os discursos éticos e as campanhas de boa vontade? A causa da crise moral é mais profunda e devemos estar atentos a ela. Ela é outra, impalpável, sutil, penetrante como se fosse uma poderosa e temível radioatividade. Todos lhe sentem os efeitos, mas poucos saberiam dizer-lhe o nome e a essência.

 

Primeira Parte

Capítulo I - Crise do Homem Contemporâneo, Ocidental e Cristão

As muitas crises que abalam o mundo hodierno — do Estado, da família, da economia, da cultura, etc.— não constituem senão múltiplos aspectos de uma só crise fundamental, que tem como campo de ação o próprio homem. Em outros termos, essas crises têm sua raiz nos problemas de alma mais profundos, de onde se estendem para todos os aspectos da personalidade do homem contemporâneo e todas as suas atividades.

Essa crise é principalmente a do homem ocidental e cristão, isto é, do europeu e de seus descendentes, o americano e o australiano. E é enquanto tal que mais particularmente a estudaremos. Ela afeta também os outros povos, na medida em que a estes se estende e neles criou raiz o mundo ocidental. Nesses povos tal crise se complica com os problemas próprios às respectivas culturas e civilizações e ao choque entre estas e os elementos positivos ou negativos da cultura e da civilização ocidentais.

Capítulo II - A raiz comum de toda a crise humana

O Salvador do Mundo não trouxe uma solução intra-mundana, para uma vida melhor neste mundo. Ensinou e realizou que a meta do viver humano neste mundo está fora deste mundo, isto é, na comunhão com a Santíssima Trindade, pelo Filho, a Segunda Pessoa, pela virtude do Espírito Santo, a Terceira Pessoa, que é o Espírito da Verdade e da Unidade, pelo qual Pessoas distintas vivem uma mesma vida, isto é, vivem em comunhão. Esta comunhão se dá pela submissão do homem ao Reino de Deus, ou seja, uma rendição, onde o homem desiste de criar o reino de sua própria inteligência e força. A Justiça é a criatura reconhecer que tudo lhe vem do seu Criador e colocar-se completamente sob sua dependência, obedecendo-Lhe em tudo. “Buscai em primeiro lugar o Reino de Deus e a sua justiça e todas estas coisas vos serão dadas em acréscimo”. (Mt 6,33; Lc 12,31). È exatamente essa não-conversão do homem moderno e contemporâneo ao Reino de Deus a causa geradora das questões que hoje afligem o mundo e levam a uma retomada do recurso à Ética. As “questões atuais de moral” aparecem nesse contexto da crise do homem moderno e contemporâneo, como uma esperança de que a Moral — ou a Ética — possa resolver essa crise. Tal retomada da Ética é insuficiente, e tal esperança é vã, porque pode, quando muito, iluminar intelectualmente a razão do homem acerca das atitudes justas a tomar, mas não pode vitalizar sua vontade para de fato tomá-las, uma vez que tais atitudes ferem muitos interesses políticos e econômicos particulares. Seria utópico esperar que todos esses interesses particulares cedessem aos raciocínios éticos “pelo bem da humanidade”, “pela preservação da natureza”, “por um futuro melhor” etc. Seria crer que o problema da humanidade é só uma ignorância ética e que a “conscientização” finalmente viria a estabelecer a paz no mundo “evoluído”. Isto é uma heresia, envolvendo racionalismo e evolucionismo. Pelo Evangelho sabemos que o problema do homem não é uma ignorância vencível — um problema da razão —, mas uma escravidão da vontade.

 

31E Jesus dizia aos judeus que nele creram: Se permanecerdes na minha palavra, sereis meus verdadeiros discípulos; 32conhecereis a verdade e a verdade vos libertará. 33Replicaram-lhe: Somos descendentes de Abraão e jamais fomos escravos de alguém. Como dizes tu: Sereis livres? 34Respondeu Jesus: Em verdade, em verdade vos digo: todo homem que se entrega ao pecado é seu escravo. 35Ora, o escravo não fica na casa para sempre, mas o filho sim, fica para sempre. 36Se, portanto, o Filho vos libertar, sereis verdadeiramente livres” (Jo 8,31-36).

 

Esta escravidão está na condição mortal do homem.

 

14Porquanto os filhos participam da mesma natureza, da mesma carne e do sangue, também ele participou, a fim de destruir pela morte aquele que tinha o império da morte, isto é, o demônio, 15e libertar aqueles que, pelo medo da morte, estavam toda a vida sujeitos a uma verdadeira escravidão” (Hb 2,14-15).

 

A escravidão se dá “pelo medo da morte”, isto é, o desejo de viver do homem leva-o a colocar seu prazer na posse e no poder sobre as criaturas — outros homens, os recursos da terra, o dinheiro — como se estas pudessem lhe dar vida plena, para a qual foi criado por Deus. Como as criaturas não o podem, o homem só pode se salvar se esperar na graça do Criador que lhe deu esta vida e dará a vida plena, cujo anseio colocou em nosso coração. Realiza-se então a palavra de São Paulo a Timóteo:

 

10Porque a raiz de todos os males é o amor ao dinheiro. Acossados pela cobiça, alguns se desviaram da fé e se enredaram em muitas aflições” (1Tm 6,10).

 

Esta é a raiz da crise contemporânea, ainda mais grave que em outras épocas da história. Veremos porque.

A graça do Criador age no homem pelas virtudes da Fé, da Esperança e da Caridade e pelos dons do Espírito Santo. Esta graça é descrita por São João como um novo nascimento, do Alto.

 

3Jesus replicou-lhe: Em verdade, em verdade te digo: quem não nascer de novo não poderá ver o Reino de Deus. 4Nicodemos perguntou-lhe: Como pode um homem renascer, sendo velho? Porventura pode tornar a entrar no seio de sua mãe e nascer pela segunda vez? 5Respondeu Jesus: Em verdade, em verdade te digo: quem não renascer da água e do Espírito não poderá entrar no Reino de Deus. 6O que nasceu da carne é carne, e o que nasceu do Espírito é espírito. 7Não te maravilhes de que eu te tenha dito: Necessário vos é nascer de novo. 8O vento sopra onde quer; ouves-lhe o ruído, mas não sabes de onde vem, nem para onde vai. Assim acontece com aquele que nasceu do Espírito. 9Replicou Nicodemos: Como se pode fazer isso? 10Disse Jesus: És doutor em Israel e ignoras estas coisas!… 11Em verdade, em verdade te digo: dizemos o que sabemos e damos testemunho do que vimos, mas não recebeis o nosso testemunho. 12Se vos tenho falado das coisas terrenas e não me credes, como crereis se vos falar das celestiais? 13Ninguém subiu ao céu senão aquele que desceu do céu, o Filho do Homem que está no céu. 14Como Moisés levantou a serpente no deserto, assim deve ser levantado o Filho do Homem, 15para que todo homem que nele crer tenha a vida eterna. 16Com efeito, de tal modo Deus amou o mundo, que lhe deu seu Filho único, para que todo o que nele crer não pereça, mas tenha a vida eterna. 17Pois Deus não enviou o Filho ao mundo para condená-lo, mas para que o mundo seja salvo por ele” (Jo 3,3-17).

 

Renascer do Espírito é libertar-se do medo da morte. Pela fé, sabe-se do amor de Deus, que tudo deu por graça à sua criatura humana e sabe-se que a morte não destrói o homem, mas sim o pecado, a separação da sua fonte de vida e de ser, que é Deus. Todo pecado é, em grau maior ou menor, uma revolta contra Deus e um grito de independência em relação a Ele. Quem renasceu do Espírito já está sepultado para o reino deste mundo e vivo para o Reino de Deus (cf. Cl 3,1-3). Então prefere morrer do que pecar. Este é o testemunho do Reino de Deus que deram, por exemplo, os mártires. Não há outra solução real para as “questões atuais de moral”. Se houvesse, o Redentor a teria revelado e o seu Reino seria deste mundo. Portanto, uma civilização cristã não pode ser a civilização da adoração do conforto e do prazer físico, simplesmente, mas da austeridade, do sacrifício de si mesmo para o bem comum e da responsabilidade, por temor e amor a Deus. Aparentemente, parece que seria uma civilização séria e sem alegria. Exatamente o contrário. Seria a civilização da alegria e da beleza.

Capítulo III - A crise é também da Igreja

Um aspecto da crise atual é a grande esperança que homens de Igreja — bispos, presbíteros, e intelectuais — colocam nos discursos éticos, ignorando as verdades básicas da Redenção que expusemos acima. Por exemplo, o recurso que se faz às ‘Declarações de Direitos Humanos’. Em que se baseiam esses ‘direitos humanos’? São convenções humanas, que servem até de pretexto para ações de dominação política. O eixo Nova York-Londres não intervem nos países para lutar contra ‘ditadores’ e defender os ‘direitos humanos’? Mas não propagam aí mesmo o aborto, a pornografia e outras mazelas? E essas intervenções não são caras operações militares que são cobertas, com grandes lucros, pelas riquezas conquistadas nas operações pelos ‘direitos humanos’? Ao cobrar respeito aos ‘direitos humanos’ os sucessores dos apóstolos não anunciam o mistério de Cristo, que é a sua missão, mas agem como representantes de associações filantrópicas, como a Anistia Internacional, o Rotary ou o Lions Club. O anúncio do mistério de Jesus Cristo passa pela revelação da misericórdia de Deus em relação a todo homem, todo pecador, da ação do Maligno e da conversão pessoal, e não por uma reivindicação ou exigência de justiça humana, como se esta fosse a salvação do mundo (cf. Lc 12,13-15). Em outros pontos também assumem com facilidade posturas filosóficas geradas pelo ateísmo ou o materialismo. A Ética, pesquisa da inteligência humana, não salvará jamais o mundo. Só a conversão dos corações a Deus, pelo sacrifício do Corpo de Cristo, que é a Igreja pode abrir os corações dos homens ao Espírito Santo, para que se convertam. É na Cruz que a Igreja intercede pela humanidade. É a sua Cruz que a Igreja oferece a cada Santa Missa, até que Ele venha estabelecer o Reino definitivo. O Reino de Deus não é “construído” pelo homem como estamos ficando acostumados a ouvir — outra heresia atual — mas pode ser participado por ele, na medida em que se imola com Cristo na Cruz. E não há outra maneira de participar na vinda do Reino. Ou seja, de vencer o Maligno, o Príncipe deste mundo. O Caminho pelo qual Jesus o venceu é o único disponível também para sua Igreja.

Capítulo IV - Processo histórico dessa crise

A causa profunda da crise moral que vivemos é uma explosão de orgulho e sensualidade que inspirou, não diríamos um sistema, mas toda uma cadeia de sistemas ideológicos. De larga aceitação dada a estes no mundo inteiro, decorreram as três grandes revoluções da História do Ocidente: a Pseudo-Reforma, a Revolução Francesa e o Comunismo (cfr. Leão XIII, Encíclica “Parvenus à la Vingt-Cinquième Année”, de 19-III-1902 — “Bonne Presse”, Paris, vol. VI, p. 279). São, todas as três, etapas de uma só revolução que tem sua raiz no íntimo do homem e na sua escravidão à carne. Tal revolução pode ser chamada também revolução comercial ou burguesa, e inclui a revolução industrial e filosófica dos últimos cinco séculos, pelo menos.

O orgulho leva ao ódio a toda superioridade, e, pois, à afirmação de que a desigualdade é em si mesma, em todos os planos, inclusive e principalmente nos planos metafísico e religioso, um mal. É o aspecto igualitário do pensamento moderno.

A sensualidade, de si, tende a derrubar todas as barreiras. Ela não aceita freios e leva à revolta contra toda autoridade e toda lei, seja divina ou humana, eclesiástica ou civil. É o aspecto liberal do pensamento moderno ou modernismo.

Ambos os aspectos, que têm em última análise um caráter metafísico, parecem contraditórios em muitas ocasiões, mas se conciliam na utopia marxista de um paraíso anárquico em que uma humanidade altamente evoluída e “emancipada” de qualquer religião vivesse em ordem profunda sem autoridade política, e em uma liberdade total da qual entretanto não decorresse qualquer desigualdade.

A Pseudo-Reforma foi uma primeira revolução. Ela implantou o espírito de dúvida, o liberalismo religioso e o igualitarismo eclesiástico, em medida variável aliás nas várias seitas a que deu origem.

Seguiu-se-lhe a Revolução Francesa, que foi o triunfo do igualitarismo em dois campos. No campo religioso, sob a forma do ateísmo, especiosamente rotulado de laicismo. E na esfera política, pela falsa máxima de que toda a desigualdade é uma injustiça, toda autoridade um perigo, e a liberdade o bem supremo.

O Comunismo é a transposição destas máximas para o campo social e econômico.

Estas três revoluções são episódios de um só processo histórico, dentro do qual o socialismo e o liberalismo são etapas de transição ou manifestações atenuadas.

Capítulo V - Caracteres dessa Crise

Por mais profundos que sejam os fatores de diversificação dessa crise nos vários países hodiernos, ela conserva, sempre, cinco caracteres capitais:

 

1. É UNIVERSAL: Essa crise é universal. Não há hoje povo que não esteja atingido por ela, em grau maior ou menor.

 

2. É UNA: Essa crise é una. Isto é, não se trata de um conjunto de crises que se desenvolvem paralela e autonomamente em cada país, ligadas entre si por algumas analogias mais ou menos relevantes.

Quando ocorre um incêndio numa floresta, não é possível considerar o fenômeno como se fosse mil incêndios autônomos e paralelos, de mil árvores vizinhas umas das outras. A unidade do fenômeno “combustão”, exercendo-se sobre a unidade viva que é a floresta, e a circunstância de que a grande força de expansão das chamas resulta de um calor no qual se fundem e se multiplicam as incontáveis chamas das diversas árvores, tudo, enfim, contribui para que o incêndio da floresta seja um fato único, englobando numa realidade total os mil incêndios parciais, por mais diferentes, aliás, que cada um destes seja em seus acidentes.

A Cristandade ocidental constituiu um só todo, que transcendia os vários países cristãos, sem os absorver. Nessa unidade viva se operou uma crise que acabou por atingi-la toda inteira, pelo calor somado e, mais do que isto, fundido, das sempre mais numerosas crises locais que há séculos se vêm interpenetrando e se somando ininterruptamente. Em conseqüência, a Cristandade, enquanto família de Estados oficialmente católicos, de há muito cessou de existir. Dela restam como vestígios os povos ocidentais e cristãos. E todos se encontram presentemente em agonia, sob a ação deste mesmo mal.

Nos últimos anos é mais fácil observar isso, que já acontece há séculos. As campanhas mundiais em favor do do sexo livre, contra qualquer relação de causa e efeito entre sexualidade, união estável de vida e reprodução humana, contra a família, a favor do homossexualismo, do aborto, da eutanásia, da liberação e aceitação do uso cotidiano de entorpecentes são sinais claríssimos de um mundo que vai caminhando para a tristeza e o mal.

 

3. É TOTAL: Considerada em um dado país, essa crise se desenvolve numa zona de problemas tão profunda, que ela se prolonga ou se desdobra, pela própria ordem das coisas, em todas as potências da alma, em todos os campos da cultura, em todos os domínios, enfim, da ação do homem.

 

4. É DOMINANTE: Encarados superficialmente, os acontecimentos dos nossos dias parecem um emaranhado caótico e inextricável, e de fato o são de muitos pontos de vista.

Entretanto, podem-se discernir resultantes, profundamente coerentes e vigorosas, da conjunção de tantas forças desvairadas, desde que estas sejam consideradas do ângulo da grande crise de que tratamos.

Com efeito, ao impulso dessas forças em delírio, as nações ocidentais vão sendo gradualmente impelidas para um estado de coisas que se vai delineando igual em todas elas, e diametralmente oposto à civilização cristã.

De onde se vê que essa crise é como uma rainha a que todas as forças do caos servem como instrumentos eficientes e dóceis.

 

5. É PROCESSIVA: Essa crise não é um fato espetacular e isolado. Ela constitui, pelo contrário, um processo crítico já cinco vezes secular, um longo sistema de causas e efeitos que, tendo nascido, em momento dado, com grande intensidade, nas zonas mais profundas da alma e da cultura do homem ocidental, vem produzindo, desde o século XV até nossos dias, sucessivas convulsões. A este processo bem se podem aplicar as palavras de Pio XII a respeito de um sutil e misterioso “inimigo” da Igreja: “Ele se encontra em todo lugar e no meio de todos: sabe ser violento e astuto. Nestes últimos séculos tentou realizar a desagregação intelectual, moral, social, da unidade no organismo misterioso de Cristo. Ele quis a natureza sem a graça, a razão sem a fé; a liberdade sem a autoridade; às vezes a autoridade sem a liberdade. É um “inimigo” que se tornou cada vez mais concreto, com uma ausência de escrúpulos que ainda surpreende: Cristo sim, a Igreja não! Depois: Deus sim, Cristo não! Finalmente o grito ímpio: Deus está morto; e, até, Deus jamais existiu. E eis, agora, a tentativa de edificar a estrutura do mundo sobre bases que não hesitamos em indicar como principais responsáveis pela ameaça que pesa sobre a humanidade: uma economia sem Deus, um Direito sem Deus, uma política sem Deus” (Alocução à União dos Homens da Ação Católica Italiana, de 12-X-1952 — “Discorsi e Radiomessaggi“, vol. XIV, p. 359).

Este processo não deve ser visto como uma seqüência toda fortuita de causas e efeitos, que se foram sucedendo de modo inesperado. Já em seu início possuía esta crise as energias necessárias para reduzir a atos todas as suas potencialidades, que em nossos dias conserva bastante vivas para causar por meio de supremas convulsões as destruições últimas que são seu termo lógico.

Influenciada e condicionada em sentidos diversos, por fatores extrínsecos de toda ordem — culturais, sociais, econômicos, étnicos, geográficos e outros — e seguindo por vezes caminhos bem sinuosos, vai ela no entanto progredindo incessantemente para seu trágico fim.

Capítulo VI - Formação e Dissolução de uma  civilização relativamente cristã

O Cristianismo se difundiu no Ocidente e Oriente próximo na unidade política gerada pelo Império Romano. Embora fosse uma sociedade pagã e politeísta, também escravagista, e com muitos outros elementos morais negativos, como organização social e política era um dos vértices máximos até então atingidos pela humanidade. A herança da filosofia grega foi herdada em seus melhores valores pelo espírito romano. As virtudes pregadas pela ética grega encaixaram-se bastante bem no espírito romano, cujo caráter militar acolheu bem a austeridade e a ponderação características do pensamento grego. Como mostra Santo Agostinho, em “A Cidade de Deus”, estas foram as causas do crescimento do Império e da Civilização romanas. A virtude trouxe a força. Com a força veio o domínio sobre outros povos e, com isso, a prosperidade. A prosperidade e o poder, porém, ao longo das sucessivas gerações, traz o relaxamento moral, pela fraqueza da carne humana, escrava dos prazeres, e daí veio a gradual queda do Império Romano. Com a corrupção moral interna do Império veio a sua conseqüente fragmentação política. E os povos externos ao império, vindos do Oriente ou do Norte da Europa, chamados de ‘bárbaros’, com um nível cultural sensivelmente inferior ao dos romanos e dos povos integrados no Império, o invadiram. No Ocidente, pelo fim do IV século, caiu o Império Romano. No Oriente, permaneceu com um poder lentamente decrescente, em geral, até a sua queda definitiva, em 1453, quando os turcos muçulmanos apossaram-se de Constantinopla.

Com a invasão dos bárbaros, perdeu-se a unidade política e a ordem institucional. Com o tempo, foi-se formando uma ‘ordem’ de sobrevivência, em unidades muito menores, chamadas feudos. Os feudos formaram-se como resposta às ameaças à vida e a impossibilidade de sonhos de grandeza. Formaram-se como pequenas sociedades orgânicas, onde cada um tinha o seu papel numa hierarquia natural. O mais forte cuidava da defesa e isso deu origem à nobreza medieval. Os outros cuidavam da produção, seja agrícola como artesanal. O feudo funcionava como um corpo onde cada um tem o seu papel para o bem do conjunto, o bem comum. E, em geral cada um aceitava o seu papel, sem o domínio de ambições pessoais acentuadas. Acrescente-se a isso o papel evangelizador das ordens monásticas, especialmente a de São Bento, com seu exemplo de ‘ora et labora’ formando no mosteiro uma perfeita sociedade de irmãos e pregando ao povo. A insegurança gerada pela ausência de um forte poder central e a ausência de riqueza em quantidade excessiva levaram os homens, somados à pregação do Evangelho e à presença forte na cultura então formada de Deus e do destino eterno que Ele preparou para os homens, levou, nessa época, à aceitação do diferente papel social de cada um, numa igual dignidade humana, de filhos de Deus.

A sociedade feudal era uma sociedade eminentemente rural. A necessidade de sobrevivência e defesa dos feudos, no início levou a uma bastante grande dispersão, de forma que a comunicação do feudo com o mundo exterior era relativamente pequena. Com o tempo e o trabalho virtuoso, as coisas tendem a estabilizar-se e o processo natural é que a comunicação vá crescendo. Foi o que aconteceu. Um processo de integração dos feudos gerando relações unificadoras, ainda em relações hierárquicas, em que os feudatários se relacionavam como vassalos e suseranos, e o suserano principal era o rei. Os feudos, no entanto, tinham uma bastante grande autonomia. O rei, em geral, não tinha nem poder, nem meios técnicos para comandar tiranicamente todos os feudos. Um exemplo disso é que a Alemanha, centro do Sacro Império, só foi unificada como país no século XIX. E a Suíça, até hoje, é uma federação bastante livre de cantões, feudos suíços.

Com a estabilização da civilização medieval, ao longo do tempo, a comunicação foi aumentando e o contato com os povos do Oriente cresceu. Apareceu, com isso, possibilidades anteriormente impossíveis. Inovações em muitos campos, desde a culinária às artes manuais, tecidos etc… Uma série de possibilidades que faziam a vida mais ‘gostosa’. Foi crescendo o espaço de uma atividade pouco presente no começo da civilização feudal: o comércio. Com o comércio, foi crescendo a importância do sistema monetário, e com isso, apareceram os bancos e os banqueiros. E com eles a usura e a acumulação de riqueza. A riqueza acumulada gerou a concentração de poder. A vida foi ficando menos rural e progressivamente se deslocando para as cidades. Daí os comerciantes e banqueiros serem chamados de ‘burgueses’ (burgo=cidade). As possibilidades novas abertas pelo comércio tinham sua força nas fraquezas da carne, no gosto pelo ‘agradável’, ‘gostoso’, visualmente ‘belo’, ou seja tinham sua força no íntimo da alma do homem. O crescente poder dos banqueiros e comerciantes quebra a unidade moral, pois se baseava numa prática considerada imoral que era a cobrança de juros segundo as possibilidades do mercado e não segundo o bem das pessoas. A prosperidade, mais uma vez fez esquecer o bem das pessoas e a solidariedade e o lucro se tornou um fim em si mesmo. Isso gerou um constante atrito entre o mundo da atividade laboral humana, que foi sendo marcado pelo comércio, e o mundo do espírito, entre a vida prática e a vida de fé. A sedução dos confortos vai predominar, historicamente.

No século XIV começa a observar-se, na Europa cristã, uma transformação de mentalidade que ao longo do século XV cresce cada vez mais em nitidez. O apetite dos prazeres terrenos se vai tornando em ânsia. As diversões se vão tornando mais freqüentes e mais suntuosas. Os homens se preocupam sempre mais com elas. Nos trajes, nas maneiras, na linguagem, na literatura e na arte o anelo crescente por uma vida cheia de deleites da fantasia e dos sentidos vai produzindo progressivas manifestações de sensualidade e moleza. Há um paulatino deperecimento da seriedade e da austeridade dos antigos tempos. Tudo tende ao risonho, ao gracioso, ao festivo. Os corações se desprendem gradualmente do amor ao sacrifício, da verdadeira devoção à Cruz, e das aspirações de santidade e vida eterna. A Cavalaria, outrora uma das mais altas expressões da austeridade cristã se torna amorosa e sentimental, a literatura de amor lascivo invade todos os países, os excessos do luxo e a conseqüente avidez de lucros se estendem por todas as classes sociais.

Tal clima moral, penetrando nas esferas intelectuais, produziu claras manifestações de orgulho, como o gosto pelas disputas aparatosas e vazias, pelas argúcias inconsistentes, pelas exibições fátuas de erudição, e lisonjeou velhas tendências filosóficas, das quais triunfara a Escolástica, e que já agora, relaxado o antigo zelo pela integridade da Fé, renasciam em aspectos novos. O absolutismo dos legistas, que se engalanavam com um conhecimento vaidoso do Direito Romano, encontrou em Príncipes ambiciosos um eco favorável. E “pari passu” foi-se extinguindo nos grandes e nos pequenos a fibra de outrora para conter o poder real nos legítimos limites vigentes nos dias de São Luís de França e São Fernando de Castela.

 

A. A Pseudo-Reforma e a Renascença

 

Este novo estado de alma continha um desejo possante, se bem que mais ou menos inconfessado, de uma ordem de coisas fundamentalmente diversa da que chegara a seu apogeu nos séculos XII e XIII.

A admiração exagerada, e não raro delirante, pelo mundo antigo, serviu como meio de expressão a esse desejo. Procurando muitas vezes não colidir de frente com a velha tradição medieval, o Humanismo e a Renascença tenderam a relegar a Igreja, o sobrenatural, os valores morais da Religião, a um segundo plano. O tipo humano, inspirado nos moralistas pagãos, que aqueles movimentos introduziram como ideal na Europa, bem como a cultura e a civilização coerentes com este tipo humano, já eram os legítimos precursores do homem ganancioso, sensual, laico e pragmático de nossos dias, da cultura e da civilização materialistas em que cada vez mais vamos imergindo. Os esforços por uma Renascença cristã não lograram esmagar em seu germe os fatores de que resultou o triunfo paulatino do neopaganismo.

Em algumas partes da Europa, este se desenvolveu sem levar à apostasia formal. Importantes resistências se lhe opuseram. E mesmo quando ele se instalava nas almas, não lhes ousava pedir — de início pelo menos — uma formal ruptura com a Fé.

Mas em outros países ele investiu às escâncaras contra a Igreja. O orgulho e a sensualidade, em cuja satisfação está o prazer da vida pagã, suscitaram o protestantismo e o humanismo.

O orgulho deu origem ao espírito de dúvida, ao livre exame, à interpretação naturalista da Escritura. Produziu ele a insurreição contra a autoridade eclesiástica, expressa em todas as seitas pela negação do caráter monárquico da Igreja Universal, isto é, pela revolta contra o Papado. Algumas, mais radicais, negaram também o que se poderia chamar a alta aristocracia da Igreja, ou seja, os Bispos, seus Príncipes. Outras ainda negaram o próprio sacerdócio hierárquico, reduzindo-o a mera delegação do povo, único detentor verdadeiro do poder sacerdotal.

No plano moral, o triunfo da sensualidade no protestantismo se afirmou pela supressão do celibato eclesiástico e pela introdução do divórcio.

No plano político, o verdadeiro poder foi sendo transferido dos feudatários para os burgueses. Este financiavam os reis e isso levou a uma concentração do poder político nas mãos dos reis, sob o poder econômico dos burgueses, e mantidos por esses, segundo os seus interesses. Surgiu assim, no século XVI, o absolutismo, ausente nos tempos medievais. Este levará à exploração dos pobres e a uma sociedade de luxos e desperdícios, que provocará a revolta popular contra os reis. Esta revolta, porém, também estará no plano dos banqueiros, agora já bastante mais ricos do que na Idade Média, devido também às grandes navegações, financiadas por eles, às riquezas vindas das Américas e do Extremo Oriente.

O protestantismo aconteceu como uma adaptação do cristianismo aos interesses da classe burguesa.

a) trazia uma idéia de salvação por uma ‘fé’ em Jesus Cristo, que não levava necessariamente à escolha uma porta estreita, da Cruz e da renúncia, mas a simples admissão intelectual dos títulos de Jesus Cristo, como Salvador e Filho de Deus. A acumulação da riqueza era considerada um sinal da predileção divina, contra os ensinamentos do Evangelho, mas de acordo com João Calvino.

b) negava a unidade entre as pessoas, e a intercessão pela participação de todos num só corpo - fundamento teológico da sociedade orgânica feudal - e afirmava o individualismo, cada um se salvando pela aceitação individual da ‘fé’ intelectual, apenas.

É famosa a tese do sociólogo alemão Max Weber que associa, por isso, o desenvolvimento econômico maior das nações de maioria protestante à ética protestante.

Com a queda dos reis absolutos, cujo símbolo foi a decapitação do rei Carlos I, da Inglaterra, no século XVII, e do rei Luís XVI, da França, no fim do século XVIII, estabelece-se um poder que supostamente vem do povo, representado nos seus magistrados, mas que na verdade tem por trás os banqueiros que financiam as carreiras desses mesmos ‘eleitos pelo povo’.

Cabe notar que a filosofia foi acompanhando o estado de espírito gerado pela inclinação a cada momento. No século XIV, com o comércio já bastante desenvolvido e para minar as bases metafísicas que deslegitimavam a atividade banqueira, surge o nominalismo, do qual um frade (!), Gulherme de Ockam é o principal representante. Mais tarde, no século XVI, aparecerá um René Descartes para instalar o espírito de dúvida, que abre possibilidade de justificação para as práticas mais absurdas, colocando as verdades em dúvida e transformando tudo em opinião. O racionalismo, atribuindo toda a fonte do conhecimento à a razão pura, baseada só nos dados dos sentidos, levará a desconfiar da própria razão e a não ter certezas. Isso gerará a filosofia predominante no tempo contemporâneo que é o agnosticismo, a afirmação desconhecimento da essência das coisas e , por isso, o existencialismo. No tempo do absolutismo, no século XVII, aparecerá um Thomas Hobbes para legitimá-lo. Depois, no século XVIII, um Rousseau para ir contra o absolutismo, com uma nova e mais profunda afirmação do orgulho do homem.

 

B. A Revolução Francesa

 

A ação profunda do humanismo renascentista, com seus traços neopagãos, entre os católicos não cessou de se dilatar numa crescente cadeia de conseqüências. Favorecida pelo enfraquecimento da piedade dos fiéis —ocasionado pelo jansenismo e pelos outros fermentos que o protestantismo do século XVI desgraçadamente deixara na antiga Europa cristã — tal ação teve por efeito no século XVIII uma dissolução quase geral dos costumes, um modo frívolo e brilhante de considerar as coisas, um endeusamento da vida terrena, que preparou o campo para a vitória gradual da irreligião. Dúvidas em relação à Igreja, negação da divindade de Cristo, deísmo, ateísmo incipiente foram as etapas dessa apostasia.

Profundamente afim com o protestantismo, herdeira dele e do neopaganismo renascentista, a Revolução Francesa realizou uma obra de todo em todo simétrica à da Pseudo-Reforma. A Igreja Constitucional que ela, antes de naufragar no deísmo e no ateísmo, tentou fundar, era uma adaptação da Igreja da França ao espírito do protestantismo. E a obra política da Revolução Francesa não foi senão a transposição, para o âmbito do Estado, da “reforma” que as seitas protestantes mais radicais adotaram em matéria de organização eclesiástica:

 

— Revolta contra o Rei, simétrica à revolta contra o Papa;

— Revolta da plebe contra os nobres, simétrica à revolta da “plebe” eclesiástica, isto é, dos fiéis, contra a “aristocracia” da Igreja, isto é, o Clero;

— Afirmação da soberania popular, simétrica ao governo de certas seitas, em medida maior ou menor, pelos fiéis.

 

No final da Idade Média, a ascendente classe burguesa aliou-se aos reis contra os feudatários, enfraquecendo a nobreza e concentrando o poder nas mãos dos reis. Com a Revolução Francesa, os reis é que são abatidos. Logo após a Revolução na França, que passara por tantas tribulações, pelo Terror, subitamente, a mesma França, que no período dos reis estava sempre em conflitos contra a Áustria ou outros países, sem encontrar muita facilidade, sob o comando de Napoleão Bonaparte conquista praticamente a Europa inteira, destrona reis e coloca em seus lugares reis-fantoches que são os parentes de Napoleão. Como pode isso acontecer? Só se explica pela estratégia da burguesia de se livrar dos reis e aceder de uma forma mais direta ao poder. Caem então as monarquias, as legislações vão se tornando liberais, segundo os princípios já expostos acima e pululam as repúblicas ou monarquias parlamentares. Os representantes do povo “do qual emana todo poder” (comparar com Jo 19,11) são mais facilmente trocados do que os reis e, para acederem ao poder não tem mais o apoio do sangue, como na aristocracia, e são, por isso, mais dependentes do dinheiro. E quem o tem são os burgueses, banqueiros, industriais, grandes empresários. Com o novo estado de coisas, o poder fica mais absolutamente dependente do dinheiro e não há mais vestígio dos elementos de coragem e nobreza, que na situação precária da formação feudal, gerou as famílias nobres, perpetuadas também pela trtadição e raízes, passadas